Trevor Wishart, em seu ‘On Sonic Art’, sugere que os músicos, sobretudo quando na função de criação, não denominem-se mais compositores, mas designers sonoros. Para Wishart, a tarefa de criação, organização, arranjo musical, hoje, está muito mais próxima daquilo que os designers em geral fazem do que o que os compositores tradicionalmente realizam. Sem dúvidas, isso se deve à relação com a tecnologia.

Mais do que se prender à questão da denominação do criador musical, aproveitemos a questão de Wishart para investigar um pouco a criação contemporânea.
A tecnologia possibilita a expansão
Fazendo um comparativo das músicas de concerto produzidas nos últimos anos com aquelas criadas em determinado ano do início (ou mesmo meados) do século passado, não fica difícil verificar a expansão tímbrica. Se houve um aumento nos limites de utilização do parâmetro ‘timbre’ do som, espera-se, que a percepção auditiva humana tenha acompanhado. Nesse sentido, a capacidade linguística de compreender e/ ou apreciar sonoridades diferentes, novas, seria atualmente maior do que no século passado.

Esse alargamento sonoro-auditivo não aconteceu sobre a faixa de sons inaudíveis fisiologicamente, mas dentre os já audíveis. Fazendo uma analogia com as cores, é como se diferenciássemos muito mais as nuances entre duas ou mais cores, como entre o vermelho e o lilás, por exemplo. Hoje distinguimos muito mais uma extensão antes tida apenas como ‘ruído’. E isso deve-se sobretudo à síntese sonora e à gravação/ reprodução de áudio.
Novos sons, criação expandida
A partir, portanto, das tecnologias do áudio – mas, claro, apoiados em anteriores tecnologias da música – os compositores puderam/ podem compor suas obras utilizando esses novos timbres que eram/ são também criados por eles. O controle sobre os parâmetros do som de forma apurada, como temos hoje, fornece ferramentas para os designers sonoros criarem “novos” sons, sonoridades diferenciadas com as quais é possível, também por processos diversos, gerar novos modos de organizar o som em músicas. Nas vanguardas, como não podia deixar de ser, maneiras inovadoras de pensar, criar e fruir a música geram polêmica e abrem espaço para concepções e entendimentos que aumentam os limites daquilo que se pode pensar sobre a arte dos sons.
Continuaremos esse assunto em outro artigo. Enquanto isso, que tal ouvir um pouco de música contemporânea?