Música: arte interpretativa

A estrutura mais básica da comunicação social é representada pelo esquema:

emissor - mensagem - receptor

Existem muitas mais questões que devemos levar em conta nesse esboço dos processos de comunicação, mas para os propósitos desse artigo ficaremos só com essa relação de 3: alguém que produz uma mensagem, a própria mensagem e alguém que recebe-a. A única observação que farei mesmo sem ampliar essa estrutura geral é a de que precisamos ter em mente que o emissor não tem só o papel de ativo produtor e o receptor não é apenas um passivo recebedor, mas também um ativo interpretador, com possíveis leituras variadas da mensagem e seu contexto.

Nas artes

Às obras de artes visuais tradicionais (a absoluta maioria até pelo menos o final do século XIX) nós podemos aplicar um esquema semelhante de comunicação:

criador - obra - apreciador
Foto por Dazzle Jam em Pexels.com

Isso acontece porque historicamente os artistas visuais produzem obras que são apresentadas diretamente ao público, sem mediações. Pense no processo de uma pintura, por exemplo: um pintor faz seu quadro, que é apresentado (eventualmente em determinada ocasião, em específico local) diretamente ao público. A obra é o quadro, que é produzido pelo emissor primeiro, o artista visual – pintor. Assim os receptores têm acesso imediato à obra que foi produzida pelo criador, sem intermediários.

Falaremos mais adiante de aspectos diferentes que eventualmente acontecem durante os processos de comunicação nas artes, quando mais participantes participam entre o emissor inicial e o receptor final. No caso de visuais, podemos pensar nos guias de museus, por exemplo, que muitas vezes mediam a relação entre público e obra visual, entretanto isso não faz parte do processo em si, que não depende dessa “figura”.

Outras artes têm por tradição um processo diferente. No teatro e na música, por exemplo, o esquema mais tradicional envolve dois elementos a mais:

criador - “roteiro” da obra - intérprete - obra - público
Foto por cottonbro em Pexels.com

A adição acontece justamente porque há uma mediação para a execução da obra, feita pelo(s) intérprete(s). Essas são as artes interpretativas. Analisemos mais essa estrutura.

Papel duplicado

Perceba que os intérpretes tem papel duplo na estrutura básica de comunicação nas artes interpretativas: eles são os primeiros receptores dos criadores e emissores mais próximos do público. Também é importante notar que aos criadores cabe a produção do “roteiro” para a execução da obra por parte do intérprete, o que implica uma série de “consequências”. Antes de apontá-las, vejamos a aplicação dessa estrutura ao esquema tradicional de produção musical no ocidente.

Foto por Yogendra Singh em Pexels.com

A complexidade da execução mediada

Aplicando o esboço básico que estamos usando à música (de tradição ocidental), temos:

compositor - partitura - intérprete - música - público
Foto por Alena Darmel em Pexels.com

Toda mensagem é elaborada para um certo receptor idealizado, o que, no nosso esquema, vai implicar de maneira dupla ao compositor: o “alvo” final do compositor com uma obra é o público que poderá ouví-la, mas para que exista a música sonora é (na tradição, enfatizo) necessário que ele escreva a partitura, que também é feita a partir da idealização de um ou mais intérpretes. Podemos descrever esse processo, do ponto de vista do compositor, da seguinte maneira:

um compositor cria uma música tendo como base um público imaginado. Para que a música soe da maneira que pretende, ele escreve uma partitura idealizando intérpretes que executariam da maneira que imagina a música sonoramente. Falando de outro modo: os compositores precisam pensar em como escrever a partitura para que os intérpretes executem sonoramente a música imaginada para chegar ao público idealizado de certo modo também idealizado.

Um processo bastante complexo, portanto. E lembremos que estamos deixando de lado, para simplificar a explicação e o entendimento, vários aspectos da comunicação que fazem grande diferença.

Foto por Lex Photography em Pexels.com

Mediador

Os intérpretes, como já vimos anteriormente, têm um papel duplo nesse esquema. Normalmente, eles leem a partitura imaginando as intenções do compositor no geral e eventualmente em trechos específicos – porque sempre há questões em aberto e/ ou ambíguas na interpretação de qualquer mensagem – e executam sonoramente a música da melhor maneira possível para impactar o público imaginado não só do modo como eles próprios pretendem, mas como pensam que o compositor idealizou.

Foto por AfroRomanzo em Pexels.com

Basicamente, portanto, as relações de comunicação nas artes interpretativas, e a música é uma das mais tradicionais nesse âmbito, é bastante complexa por envolver um “ator” a mais: o intérprete. Isso faz com que um roteiro seja necessário também porque a mensagem “final” pretendida é executada pelo(s) intérprete(s) e não diretamente pelo primeiro criador, o compositor.

Mais complexo

Claro que temos na música muitas outras configurações desse processo básico de comunicação: pense, por exemplo, em como fica quando temos improvisação ou quando temos um grupo como uma orquestra (com o maestro) interpretando uma partitura. As configurações são variadas e a complexidade também.

Foto por Thibault Trillet em Pexels.com

Crescimento da linguagem

Há quem pense que compositores não necessariamente pensam no público ou no impacto de sua obra no público, mas apenas na obra em si. Já desenvolvi um trabalho em que um dos aspectos da comunicação é justamente o pensamento sobre o crescimento da linguagem com que se está trabalhando. Aplicando a esse caso: o compositor estaria eventualmente mais preocupado com o desenvolvimento ou “evolução” da linguagem sonora do que com o impacto no público das escolhas técnicas e estéticas de sua obra. Mas esse papo fica pra outra hora.

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