Intimidades acústicas

Movimento, Som, Audição

Todo movimento produz som. Do mais fraco ao insuportavelmente forte. Já comentei sobre isso no artigo “O que é som?“.

Acrescente essa relação (movimento->som) ao fato de ouvirmos boa parte dos sons ao nosso redor. Você já se deu conta da grandiosidade disso em nossas vidas?

O som é social.

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Leia mais a respeito no artigo “O som do cotidiano“. De certo modo, este é uma continuidade daquele.

A audição – nossa interface com o som – dá essa característica social à esse fenômeno acústico. Por isso, convivemos com os sons produzidos por todos e todas à nossa volta.

Enquanto escrevo esse texto, por exemplo, a vizinha aqui do lado promove um “rally” – ou seria parkour? – com seu cachorro pelo apartamento.

Como tudo mais, alguns sons são propositalmente compartilhados e outros, digamos, “pessoais”. Mas existem vários graus entre esses extremos e também alguns motivos diferentes.

O som compartilhado

Eeeeeeeeeeeeeei! Você aííííííííííííííííí!

Quando falamos produzimos sons. E, na maioria das vezes, queremos que alguém escute o som que estamos produzindo e, inclusive, entenda, por meio dele, o que queremos dizer, expressar… Mas, além da nossa fala, costumamos usar vários diferentes tipos de movimentos para a produção de sons musicais por meio de instrumentos… musicais.

Certamente os sons dos instrumentos musicais são produzidos para serem compartilhados. E a música toda, ou seja, todo o universo dessa arte é – também – isso: compartilhamento de sons! Tem música inclusive misturada com fala! 😀

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A partir do meio do século XIX, mas principalmente do início do século XX, temos a possibilidade de guardar o som para reproduzí-lo depois, quando quisermos. A tecnologia tornou possível o áudio. E com o áudio, temos acesso à músicas e sons de diferentes lugares e épocas, diversos estilos e tudo isso compartilhado! Um mundo de sons cada vez maior!

Com o áudio e a possibilidade de usarmos caixas de sons para reproduzir sons para nós, o compartilhamento também extrapolou um pouco locais e intensidades de épocas em que, se quiséssemos sons e música, alguém necessariamente precisaria produzi-los ali, ao nosso redor, para que pudéssemos nos deleitar acusticamente.

Então, do urro, grito ou assovio para comunicar ou chamar a atenção até a música no trio elétrico ou no fusca tunado, que chacoalha a coluna e provoca pela intensidade, vivemos imersos em um imenso universo (multiverso?) sonoro.

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Sons pessoais

Além de sons que compartilhamos, existem sons que só nós ou poucas pessoas ao nosso redor ouvem. Naturalmente acabamos desenvolvendo certas restrições quanto à produção de alguns sons específicos diante de outras pessoas (em geral ou em específico). Falaremos desse motivo logo abaixo. Por enquanto, fiquemos nessa ideia de intimidade acústica.

Quantas vezes você falou baixinho ou sussurrando para que mais pessoas não ouvissem?

O som é social por natureza. Nossos ouvidos não se fecham como os olhos e assim estamos sempre atentos a sons mais fortes, de determinados timbres ou alturas. Mas algumas vezes não queremos compartilhar aquele sonzinho querido com ninguém, embora o contrário também seja bastante comum (cantar forte de tanta felicidade, por exemplo).

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Quantas vezes não esfregamos as mãos, brincamos com a água durante o banho ou afastamos a cadeira lentamente para produzir o menor ruído possível? Não foi um nem dois o número de filósofos e grandes pensadores que defenderam a ideia de permanecer em silêncio a menos que se tenha algo bom para dizer. E parece que ampliamos essa noção e muitas vezes não só não dizemos nada como procuramos não produzir som algum. Mas isso tem lá seus motivos.

Filtro moral ou ético

Todo mundo já produziu algum ruído em momentos em que a “etiqueta dizia” que era pra ter silêncio. E muitas vezes esses eventos se tornaram constrangedores. Fazer o quê?

Você já parou para pensar que temos uma espécie de filtro (variando cultural e socialmente) moral ou ético em relação à produção de alguns sons na presença de algumas pessoas em específico ou de qualquer um? Mas por quê?

Não esgotaremos esse assunto aqui, afinal a ideia é de chamar a atenção, introduzir, mas ainda assim podemos pensar em alguns motivos para responder essa dúvida, como: é comum produzirmos sons mais fracos (ao ponto de apenas nós ouvirmos) quando estamos treinando algo, seja um discurso, um trecho de uma música ou simplesmente batucando na bancada. Mas além desse instinto que nos leva a diminuir a intensidade para testar antes de produzir algo mais forte, também é comum que os sons fraquinhos sejam assim por timidez. Tem gente que até fala baixinho sempre por pura timidez.

Durma com esse barulho!

Tem ainda os sons que a moral tolhe. Não é muito comum (proporcionalmente), por exemplo, que as pessoas gemam de prazer de modo que os sons extrapolem as quatro paredes. A dor, por outro lado, nos tira essa vergonha e, por ela, gememos sem nos preocupar com o que pensarão de nós. Na maioria das vezes sabemos mais ou menos a intensidade que precisamos manter (ou não) para que os sons que estamos produzindo não ultrapassem certa barreira física (como uma parede) ou moral/ ética.

Minha vizinha – aquela do cachorro – volta e meia parece não conhecer esses limites. 🙄

Quando nos preocupamos se o som que vamos fazer atrapalhará ou incomodará vizinhos ou conviventes do mesmo lugar em que estamos, mostramos que temos essa consciência acústica da intimidade e da noção de limite do espaço acústico de cada um. E em espaços urbanos, em que poucas paredes separam muitas pessoas que produzem muito movimento e sons, isso se tornou essencial para a convivência. Taí mais uma perspectiva para se pensar o som!

Já tinha pensado nessa noções de espaço e intimidade acústica? Quanto nossos sons podem revelar de nós? 🤔 Pense nisso! 🤓

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