O som do cotidiano

O som desde sempre intriga e encanta quem procura pensar sobre ele. E, embora você não precise ficar filosofando sobre os fenômenos sonoros/ musicais, podendo apenas fruí-los, apreciá-los etc, refletir sobre o som e suas possibilidades é sempre muito interessante.

Talvez a atitude de não pensar sobre o som – que de errado nada tem – tenha a ver com nosso comportamento padrão de não dar atenção às coisas tão próximas.

Características sonoras

Ao contrário da visualidade, o sonoro invade os espaços, está presente em cada momento da vida dos ouvintes. E isso acontece, entre outras coisas, porque o ouvido não tem uma “porta”, algo que possa tapá-lo. Enquanto podemos fechar as pálpebras, os ouvidos permanecem sempre abertos, fazendo com que o som seja algo à que estamos ininterruptamente ligados durante toda a vida. Mas, talvez para compensar isso, acabamos desenvolvendo relativamente bem a capacidade de nem sempre escutá-los.

Não escutar os sons? Como?

Foto por Monstera em Pexels.com

Ouvir | Escutar

Geralmente fazemos – na acústica musical, na semiótica da música… – distinção entre diversos tipos de audição. A mais simples/ comum diferenciação é aquela entre ouvir e escutar, sendo que “ouvir” é o que fazemos o tempo todo, sem poder controlar, uma vez que nossos ouvidos estão sempre ativos e recebendo estímulos sonoros. Mas “escutar” aponta para ‘prestar atenção’, para o processamento racional. Assim, desenvolvemos essa capacidade de prestar atenção ou não aos estímulos sonoros conforme a necessidade ou vontade. Ou seja: ainda que estejamos ouvindo sempre, conseguimos direcionar nossa atenção para determinados sons. Mas claro que alguns sons – muitos deles desagradáveis – insistem em burlar nosso “sistema de atenção” e fazem-nos escutá-los ainda que não seja nossa vontade. Analisaremos um pouco mais disso lá no final.

Paisagens sonoras

O compositor/ educador Murray Schafer começou a utilizar, há algumas poucas décadas, um conceito muito interessante no que se refere aos sons do cotidiano, aqueles ao nosso redor: “paisagem sonora”. Esse termo em inglês – soundscape – transforma a palavra “paisagem” – landscape -, o que por si só já nos leva à uma interessante indagação: por que há muito tempo notamos e temos até uma palavra para a imagem de um certo lugar e a tão pouco tempo é que criamos um termo para os sons que nos rodeiam o tempo todo, que fazem parte de nosso cotidiano, seja no trabalho, em casa, na escola, na mata etc? Bem, a resposta fica pra outra hora, porque é complexa. Por enquanto pensemos um pouco mais sobre esse conceito de “paisagem sonora”.

A geografia dos sons ao redor

A ideia de paisagem sonora difundida por Murray Schafer abriu um campo novo de pesquisas e pensamento sobre os sons. Ao começar a perceber mais atentamente – escutar – os sons ao redor no cotidiano (ou não), vários detalhes acabaram sendo notados, como, por exemplo, as transformações na paisagem sonora da vida cotidiana causadas pelas indústrias, pelas máquinas. Pense na máquina de lavar roupas que pode estar ligada e em plena “sinfonia” agora aí na sua casa, por exemplo. Além disso…

https://goodcitylife.org/chattymaps/project.php

Sons de ontem e de hoje

Um dos tipos de estudos que começaram a acontecer não faz muito tempo foi aquele sobre a história das paisagens sonoras, sobre os sons cotidianos do passado e a comparação com os atuais, seja no mesmo local ou em termos gerais. Um exemplo simples: há alguns anos os sons constantes e cotidianos que ouvia em minha casa durante a madrugada se resumiam ao trem, ao portão eletrônico do condomínio e ao barulho de um ou outro motor de carro pouco silencioso; hoje o número de carros e trens aumentou e quase todos os dias escutamos as batidas de uma rave em algum lugar não muito longe. Perceba que isso é uma alteração ambiente, mas uma mudança que não é na paisagem, mas sonora. E ele muda, se transforma cotidianamente. Nem sempre de maneira agradável…

Vizinhos: intimidade e ruído

O som é social. Ou seja: partilhamos a sua audição e compartilhamos os que produzimos (depois das redes sociais esse conceito é ainda mais marcante). Nem sempre, entretanto, os sons que ouvimos nos agradam e nem sempre agradamos aqueles que nos ouvem com os sons que fazemos, seja por querer ou por acaso, em função de outro motivo. E isso é especialmente notado pelos vizinhos.

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Com nosso vizinhos – de casa, trabalho, restaurante, mercado etc. – dividimos essa ‘intimidade’ acústica. Além de escutarmos os mesmos ruídos da paisagem sonora da região, eles ouvem os nossos sons mais proeminente e nós também ouvimos os mais fortes deles. E é aí que a coisa fica legal. Ou não!

A maioria das grandes cidades têm leis de tratam especificamente de poluição sonora e incômodos causados pelo som. O próprio conceito de “ruído” tem um pé – sobretudo na engenharia e na comunicação – no sentido de “atrapalhar”.

É nesse sentido que existe uma espécie de “etiqueta”, além das leis, sobre os sons e os níveis de intensidade que podem ser produzidos em ambientes cercados por outras pessoas, além dos momentos em que sons mais fortes ou persistente são mais tolerados. Algumas dessas regrinhas podem ser absurdas e outras nem tanto. Nas salas de concerto, por exemplo, tem muitos ‘amantes da boa música’ (o que seria isso?) que adoram ‘olhar torto’ os vizinhos que resolvem aplaudir em momentos que a etiqueta diz que não são para aplaudir ou resolvem conversar ou ter um ataque de risos no meio da sinfonia. Quem nunca?

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